SHOW COM O CLUBE DA VIOLA DE BAURU
LOCAL: Grêmio Energético de Bauru (GREB), Rua Benedito Eleutério, esquina com a Rua Campos Sales.
DATA: 23/03/2012
HORÁRIO: 21h00
ATRAÇÕES: Coral, Viola e Catira
SHOW COM O CLUBE DA VIOLA DE BAURU
LOCAL: Grêmio Energético de Bauru (GREB), Rua Benedito Eleutério, esquina com a Rua Campos Sales.
DATA: 23/03/2012
HORÁRIO: 21h00
ATRAÇÕES: Coral, Viola e Catira
Todas as apresentações fazem parte do Projeto “Acodes de Viola”, como parte do Ponto de Cultura da Secretaria de Cultura de Bauru e do Ministério da Cultura.
Lamentamos e pedimos descupas às pessoas que compareceram ao CSU da Bela Vista neste domingo para fazer suas inscriões para as oficinas de Viola e Violão pelo fato de não poderem ser recebidas na Sede do Clube da Viola. O espaço que o Clube da Viola de Bauru ocupa atualmente no Centro Social Urbano (CSU), no Jradim bela Vista em Bauru, foi cedido pelo ex-delegado regional de Esporte, Artêmio Caetano. O CSU pertence ao governo estadual – ou seja, a todos nós – e está vinculado a Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude do Estado. Houve algumas mudanças na direção do clube e o atual Diretor me pediu que fizesse o pedido por escrito, apenas por uma questão de formalidade. Fiz o pedido e ele indeferiu, alegando que o indeferimento veio de São Paulo. Como todo o espaço do CSU foi cedido à Prefeitura de Bauru, conversamos com o Prefeito Rodrigo e ele nos autorizou a permanecer no local até segunda ordem. Nesse domingo, íamos fazer as insrições anunciadas no Jornal da Cidade, mas o Diretor não nos deixou entrar alegando que, por ordem de São Paulo, nem mesmo a Prefeitura de Bauru tem ordem acessar às dependências do CSU aos sábados e Domingos.
Lamentamos e pedimos que os interessados comparecem nesta segunda-feira, às 18h00, no mesmo local, para efetuar suas inscrições.
Tião Camargo
Presidente do Clube da Viola de Bauru
Dia 22/04/2012 ás 15:00h, na inauguração da
Sala do Carreirinho, apresentação da dupla
Dia 22/04/2012 no encerramento do Festival Show com
Durante o festival será inaugurada a Sala do Carreirinho com objetos pessoais doados pelos familiares e apresentação da dupla Carreiro e Pardinho Filho.
Uma justa homenagem a um dos maiores Violeiros que o Brasil já teve.
http://www.festivalcarreirinho.blogspot.com/
Adauto Ezequiel (Carreirinho) nasceu em Bofete-SP no dia 15 de outubro de 1921. Filho do Sr. João Batista e da Dona Domitilde Maria Pereira. João Batista plantava café, e tinha criação. Foram três filhos, um menino e duas meninas. "Seu" João Batista era vizinho de "Sô" João Tropeiro, excelente violeiro de quem Adauto ficava apreciando o pontear da viola.
Sendo neto de Alemães, seu nome seria Adauto Humziker; o escrivão, no entanto, "achou Humziker complicado demais" e acabou registrando o menino como Adauto Ezequiel. E, dos alemães, Carreirinho só herdou os olhos azuis. De resto, ele era bem brasileiro.
Nunca "pegou duro" nas lidas da roça. Tendo sido o caçula, era "poupado". Mexia com o gado leiteiro, com amansação das potrancas e quando sobrava um tempinho, lá estava o Adauto com a viola no colo, presente que lhe foi dado por seu pai, apesar de muita resistência inicial, já que seu João achava que "viola era coisa de vagabundo...".
Com 15 anos, mudou-se para Pardinho-SP onde foi pedreiro e "ajudou a construir a igreja matriz do lugar", como Carreinho sempre se orgulhou.
Já na escola, fazia seus versos e tocava a viola. Em 1936, no último ano do curso primário, tocou pela primeira vez em público, apresentando a moda de viola (de sua autoria) "Minha Vida" em sua festa de formatura, pelo que foi bastante aplaudido.
Começou a se apresentar em festinhas e circos de Sorocaba-SP, cantando músicas de Raul Torres. E foi num circo em 1945 que formou a primeira dupla, Adauto e Ferraz, a qual durou um ano.
Em 1946, seguiu para a capital paulista onde formou uma segunda dupla com Piracicaba, adotando o nome de Botucatu, na dupla "Piracicaba e Botucatu". Ficaram juntos durante um ano.
Em seguida Adauto mudou o nome para Pinheiro e juntou-se ao investigador de polícia José Stramandiola, que passou a chamar-se Zé Pinhão, e formaram a nova dupla "Zé Pinhão e Pinheiro". Em junho de 1947, estrearam no programa "Sítio do Bicho de Pé", na Rádio Record de São Paulo.
Stramandiola, no entanto, sendo policial, não encontrava compatibilidade de horário entre o seu emprego e a música. Acabou optando pela polícia. E a dupla "Zé Pinhão e Pinheiro" se desfez naquele mesmo ano.[
Em seguida, Adauto formou a nova dupla (e a primeira de grande sucesso) com Lúcio Rodrigues de Souza (nascido em 1923, em Santa Rita do Passa Quatro-SP e falecido em 21/05/1970).
Adauto Ezequiel na verdade havia se sentido "perdido", sem dupla. "... Um dia, era domingo, eu estava ouvindo o "Chico Carretel" na Rádio Piratininga. Ouvi lá: Lúcio Rodrigues e Fortaleza. Escutei, prestei atenção e vi logo: tá aqui a minha segunda voz. Me arrumei e corri lá prá Piratininga, que ficava ali na Praça Patriarca. Quando cheguei, tinha um café em baixo e perguntei pelo tal Lúcio Rodrigues. Tinha acabado de sair. Me deram o endereço dele. Um prédio na Alameda Gretchen, em frente a garagem dos bondes. Fui lá. Ninguém conhecia Lúcio Rodrigues. Por sorte alguém lá no café tinha me contado como ele era. Mulato, magro, um metro e setenta, cabelo onduladinho... Já voltava, vindo embora, quando vi um moço indo em direção àquele prédio e que se parecia com aquela descrição. Aí falei comigo: "Vou gritar Lúcio, se ele olhar é porque é ele"... e gritei. Nos apresentamos, falei o que eu queria mas ele disse que num tinha interesse... Que tava bom com o Fortaleza... Dava um dinheirinho prá pagar o cigarro e o almoço. Ai, eu disse prá ele que comigo ele podia, no programa da Rádio Record, ganhar uns seiscentos por mês. Isso era mais ou menos uns três ou quatro salários da época. Ele num disse nada mas ficou com meu endereço. Na semana seguinte chegou em minha casa já trazendo "Canoeiro"..."
E a Rádio Record organizou um concurso para a escolha do nome da dupla. Foram dadas diversas sugestões, tais como "Tupi e Tupã", "Pardinho e Pardal" e "Minguinho e Mingote". Mas o nome escolhido pelo público, que havia votado por carta, foi "Zé Carreiro e Carreirinho" que passou a ser o nome da dupla formada por Lúcio Rodrigues de Souza e Adauto Ezequiel, respectivamente.
Aliás, ninguém melhor do que o próprio Carreirinho para nos dizer quem foi Zé Carreiro: "...na minha vida foi tudo (...) Eu não me destacaria no meio artístico se não fosse o Zé Carreiro. Eu reconheço isso. Fomos feitos um para o outro. Tínhamos duas vozes irmãs (...) Aquela segunda voz era suave, bonita, e se encaixou com a minha que foi uma beleza (...) Não nos dávamos muito bem, tínhamos alguns desentendimentos, mas profissionalmente, nos respeitávamos muito..."
O primeiro disco da dupla "Zé Carreiro e Carreirinho" foi um "bolachão 78 RPM" gravado pela Continental, contendo o cururu "Canoeiro" (Zé Carreiro e Nicola Caporrino "Alocin") e, a moda de viola "Ferreirinha" (Carreirinho). Lúcio e Adauto, na verdade, já faziam sucesso ao vivo no Rádio com o cururu "Canoeiro", e os Irmãos Perez, já famosos com o nome de Tonico e Tinoco, haviam se interessado em gravar a respectiva composição.
Zé Carreiro e Carreirinho consentiram em ceder a música, mediante a promessa do lançamento do seu primeiro disco, que foi gravado em 05/07/1950 e lançado em outubro do mesmo ano, com as duas composições já mencionadas; e o sucesso foi tão grande que a Continental assinou com a dupla um contrato de três anos.
Algumas duplas que faziam sucesso na época: Raul Torres e Florêncio, Tonico e Tinoco, Palmeira e Luizinho e Serrinha e Caboclinho, apenas para citar algumas.
Zé Carreiro e Carreirinho gravaram vários LPs e atuaram por dez anos na rádio Record com bastante audiência. No final da década de 50, no entanto, o parceiro Zé Carreiro teve que abandonar a carreira artística devido a problemas nas cordas vocais e também por um problema de surdez.
Carreirinho conheceu, na época, em Araçatuba-SP um mulato mineiro, bom violeiro com belíssima voz grave que causava admiração geral. Carreirinho formou então a nova dupla com José Dias Nunes, o Tião Carreiro, nome que foi sugerido por Teddy Vieira. Com quatro anos de duração, 10 discos 78 RPM e um LP lançados, a dupla "Tião Carreiro e Carreirinho" se desfez, já que Tião também "tinha luz própria" e procurou por "um parceiro que permitisse que seu peito aparecesse mais". E o "deus carrancudo" formou a inesquecível dupla com Antônio Henrique de Lima, o Pardinho (nascido em São Carlos-SP em 12 de julho de 1932 e falecido em Sorocaba-SP em 01/06/2001).
Após ter vivido algum tempo em Maringá-PR, Carreirinho retornou a São Paulo-SP em 1968 e formou com sua esposa, também compositora, Iracema Soares Gama, a nova dupla "Zita Carreiro e Carreirinho", a qual durou 16 anos, com 12 LPs, dois compactos duplos e um compacto simples.
Em 1984, Carreirinho formou dupla com Zé Matão, com quem gravou cinco LPs em cinco anos de carreira.
E foi em 1991 que Carreirinho formou juntamente com Sebastião Gonçalo, nascido em Três Corações-MG, a dupla "Carreiro e Carreirinho", tendo gravado um LP e diversos CDs. Com o Carreiro, Carreirinho se manteve "na estrada" por mais de 14 anos, praticamente até seus últimos os dias de vida.
Mesmo com a idade avançada, tendo ultrapassado os 80 anos, Adauto Ezequiel continuava gostando do que fazia. E seu mais recente parceiro, o Carreiro, é também um grande estudioso da obra da antiga dupla "Zé Carreiro e Carreirinho".
Carreirinho também chegou a formar, como que "por brincadeira", uma dupla com Sulino, a qual chegou a gravar um "CD Artesanal", tendo algumas das mais belas composições de ambos os autores, interpretadas pela dupla "Sulino e Carreirinho".
Conforme já foi dito acima, as cidades de Bofete-SP e Pardinho-SP foram fundamentais na vida e na Obra Musical do Carreirinho, e são freqüentemente mencionadas nas letras de suas belíssimas modas de viola. Observa-se até uma certa "competição" entre as duas cidades e muita gente conta suas "estórias", com frases do tipo "...Carreirinho nasceu em Bofete-SP, mas foi em Pardinho-SP que aprendeu a tocar viola...".
A cidade de Pardinho, planejava fazer um monumento, algo como que um "Túmulo Simbólico" (Cenotáfio) para o Ferreirinha (personagem fictício), já que a tragédia teria ocorrido "... No Campo do Espraiadinho / Era a 28 Km da Cidade de Pardinho...", Bofete "saiu na frente" e construiu o monumento ao Carreirinho.
Lamentavelmente, porém, um ato de vandalismo destruiu a estátua que homenageava o Carreirinho em sua Bofete natal, restando somente a Placa Metálica, onde podemos ler: "Nasci em Bofete, Na Costa da Serra, Até aos 15 Anos, Vivi nessa Terra. Adauto Ezequiel (Carreirinho). Começou a cantar com 06 anos de idade. Ganhou sua primeira viola aos 10 anos. Aos 15 anos mudou-se para Pardinho. Até os dias de hoje são 1680 músicas gravadas. Esta é a homenagem de Bofete, através do Prefeito José Carlos Roder e da Vice-Prefeita Patrícia Jamila de S. Correa. A um Ilustre Filho de Bofete. Valorizando o que é nosso. Adm - 2001 - 2004."
Há a promessa da entrega da Estátua de Carreirinho restaurada.
O nome do Carreirinho ocupa, sem dúvida, um lugar de grande destaque, como "Patriarca" na história da m úsica caipira raiz, tendo sido inclusive o "codificador" da autêntica moda de viola.
E, quando contava 87 anos de idade, Carreirinho teve que ser internado, no dia 17/03/2009, no Hospital Evaldo Foss, em São Paulo-SP, onde se encontrava praticamente em coma, em conseqüência de uma queda ocorrida em sua residência, seguida da batida da cabeça na geladeira. A partir daquele momento, ele desmaiou e foi internado de imediato.
Carreirinho exalou seu último suspiro às 00:30 de sexta-feira (27/03/2009), deixando um enorme vazio na História da música caipira raiz...
Seu corpo foi sepultado no Cemitério Jaraguá, na Via Anhangüera, na Capital Paulista.
Zequinha de Campos, de Bofete-SP, escreveu o texto abaixo, homenageando o Carreirinho, e citando ao mesmo tempo o nome de suas principais composições:
"ADAUTO EZEQUIEL... O nosso querido Carreirinho, sempre teve o PEITO SADIO, nascido no Bairro do Óleo, na cidade de Bofete-SP, em 15 de Outubro de 1921, numa CASA BRANCA DA SERRA que, por seu DOM DE POETA e grande PATRIOTA, deixou um legado para os seus admiradores que jamais será esquecido. Em sua trajetória de AMOR E FELICIDADE, também não lhe faltou PRANTO DE DOR, SAUDADE ou SOLIDÃO CRUEL, mas que também faziam parte de sua longa vida.
A canga do tempo pesou e calejou os ombros cansados do Cantador, mas nos tempos idos, já no ROMPER DA AURORA, pegava a sua inseparável Viola e cantarolava a MELODIA DA SAUDADE, que retratava a VIAGEM PENOSA, talvez imaginando a ÚLTIMA VIAGEM. Muitas vezes sentado no alpendre do seu RANCHO DE TAQUARA, que também era o RANCHO DA FELICIDADE, ficava RECORDANDO ZÉ CARREIRO seu parceiro inseparável e naquele PULMÃO DO MUNDO, poderia se deslumbrar com a ROSA BRANCA que exalava um perfume embriagador. E a ROSA, MADALENA, ANA ROSA, FLORAY, SABRINA? Por certo inspiraram a compor as suas lindas canções.
Por muitas vezes saboreando a pura GOSTOSURA fica recordando dos companheiros que também já haviam cumprido suas missões, vinha na mente o FERREIRINHA, CATIMBAU, JOÃO BOBO. Jamais se esqueceu do BOI CIGANO, da SUCURI, BOI SOBERANO. O tempo foi passando e num ADEUS À MOCIDADE com o ESPELHO DA VIDA já anunciando a sua longa estrada, compôs MEU CARRO É MINHA VIOLA, SAUDADE DE MINHA TERRA, A MORTE DO CARREIRO e tantas outras que ainda viriam enriquecer ainda mais o seu vasto repertório.
Carreirinho exaltava duas cidades as quais amava muito, uma era Bofete-SP, seu berço de nascença e outra era Pardinho-SP, onde viveu a infância e parte de sua juventude.
Carreirinho não foi o DONO DO MUNDO, tampouco REI DO CAFÉ ou REI DO GADO, mas, com toda certeza foi O REI DOS VIOLEIROS. Era muito festeiro e na NOITE DE SÃO JOÃO, VIOLA E O VIOLEIRO encantavam a festa, tinha BOMBARDEIO de rojões que rasgava o céu iluminando no negrume da noite. Tinha também a CABOCLINHA, AS TRES CUIABANAS, A FILHA DO FERREIRINHA e o PALHAÇO da Folia de Reis.
Em sua longa e feliz caminhada também teve TRISTE DESENGANO que é COISA DA VIDA, teve JURAMENTO QUEBRADO, talvez pelas conseqüências, mas sempre teve um PEITO AMIGO nas horas em que a nostalgia se fazia presente. E no NOTURNO em que FLOR DA NOITE ou a FLOR PROIBIDA vagava pelos becos da vida a procura de um amor por meros momentos, onde MAIS UMA TAÇA com sabor de fel era degustada dando um ADEUS A BOEMIA.
E a SAUDADE DE ARARAQUARA, CANOEIRO, PIRANGUEIRO, ARREPENDIDA, A MORTE DO CARREIRO, DEVER DE UM MÉDICO, modas eternizadas do seu repertório que encantam todas as gerações.
Quis o destino que o homem da TERRA ROXA, COMPANHEIRO DO FERREIRINHA, tombasse numa ESPARRELA e o CRUEL DESTINO o levasse para se encontrar com seus companheiros de noitadas de Violas. E, num último ADEUS A SÃO PAULO, a MAIOR FERA DO MUNDO sertanejo se despediu com a MISSÃO CUMPRIDA. Ele continua sendo a RIQUEZA DO BRASIL, um CANÁRIO DOURADO a voar neste espaço sem fim. Do FACÃO DO CRISTIANO só restou história. Na sua composição SÓ PELO AMOR VALE A VIDA, ele nos deixou uma experiência e valores a serem seguidos. Desse seu PADECIMENTO da PASSAGEM DO DESTINO onde houve a determinação do nosso Senhor Deus, com certeza está cantando com um coro de Anjos a antológica canção RINCÃO DE MINHA TERRA.
ADAUTO EZEQUIEL... O Nosso Querido CARREIRINHO já é um dos GRANDES HOMENS DO PASSADO que vive no nosso presente. Porque quando perdemos alguém, nós só valorizamos muito mais após a partida, é uma sensação que sinto neste momento, sempre enalteci o Carreirinho, porém, algo me sufoca neste momento. Estou sentindo a falta irreparável desse homem que foi e continua sendo a Bandeira da nossa Música Caipira. Uma grande tristeza se apossa de minha pessoa neste momento que escrevo esta singela homenagem. Mas não iremos nos curvar agora, é hora de darmos demonstração para não deixar cair no esquecimento os seus feitos, somos um país com muita memória sim, como ele dizia na sua letra "ENQUANTO FORMOS IMITADOS JAMAIS SEREMOS ESQUECIDOS"! "
Texto: Sandra Cristina Peripato
Fonte: www.boamusicaricardinho.com
Filho de Francisco Lopes Rodrigues e de Encarnación Puga Rodrigues, o compositor Miguel Lopes Rodrigues, caboclo dos Marins, bairro da cidade paulista de Piracicaba, iniciou sua carreira artística em 1937, quando formou com o irmão Santiago Lopes sua primeira dupla sertaneja, os Irmãos Piracicabanos.
Durante os quatro anos em que Miguel e Santiago trabalharam juntos a dupla se apresentou em inúmeros shows, que incluíam 'causos', humorismo e alguma música caipira. Por sugestão de Oduvaldo Viana, Miguel associou-se então a Palmeira, fazendo surgir em 1941, na Rádio Difusora de São Paulo, a dupla caipira mais importante da década seguinte: Palmeira e Piracicabano, que em 2002 completou 60 anos de criação.
Com o imediato sucesso que obteve em todo o interior e na capital do Estadode São Paulo, por influência de Serrinha (Antenor Serra) e do Capitão Furtado, a nova dupla partiu para o Rio de Janeiro para gravar seu primeiro disco. Seu primeiro LP - composto por dez faixas musicais, entre as quais Mulheres Célebres (Capitão Furtado e ítalo Izzo) e Carro de Boi (Capitão Furtado e Orlando Puzone) gravado na RCA Victor - alcançou grande repercussão em todo o Brasil. No lastro de seu amplo sucesso nacional, Palmeira e Piracicabano foram então contratados pelas casas de espetáculo de maior prestígio daquele momento, a Rádio Nacional e o Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, que viviam seu período áureo.
Foi por aquela época que Miguel Lopes Rodrigues, aceitando sugestão do padrinho e amigo Zé da Zilda, abreviou seu pseudônimo para Piraci e a dupla passou a gravar com o nome artístico de Palmeira e Piraci.
Em 1944, retornando a São Paulo como contratada da Rádio Difusora, a dupla Palmeira e Piraci participou dos programas sertanejos Longe da Cidade e Arraial da Curva Torta, este último conduzido com grande eficiência pelo Capitão Furtado, e passou a gravar pela Continental.
Canções como O Mundo Daqui a Cem Anos, Louvação a São Gonçalo, Sina de Beija-Flor (Palmeira, Piraci e Capitão Furtado), Promessa de Caboclo (Anacleto Rosas Junior), Paraguaia e Pepita de Ouro (Capitão Furtado e Palmeira), entre outras lançadas com o selo da nova gravadora, foram muito bem recebidas pelo público. Em seguida, a convite da Força Expedicionária Brasileira, a dupla voltou ao Rio de Janeiro para cantar na Vila Militar, onde Piraci musicou A Carta do Expedicionário e Palmeira criou a melodia de A Resposta para o Expedicionário, ambas com versos do Capitão Furtado.
Desfazendo-se a dupla Palmeira e Piraci em 1945, os antigos companheiros saíram à procura de parceiros para formar novas duplas. Palmeira juntou-se então ao cantor Luizinho e Piraci reuniu-se a Jorginho. Piraci e Jorginho logo ficaram conhecidos como Os Garimpeiros da Música Sertaneja.
Em 1950 Piraci casou-se com Natalina Gornik, falecida em 1992, e em 1951 viu nascer sua única filha, Veranice Gornik Rodrigues, a quem presenteou com a valsa Veranice, gravada por Carlinhos Mafazzoli. Uma outra dupla caipira, Piraci e Guarani, surgiu então naquele período.
Segundo Teddy Vieira Azevedo eles eram "[... ] os melhores intérpretes do cururu, os `bambas' do cururu [... ] e atingiram os píncaros da glória ao lançar em disco da Continental dois grandes sucessos: o cururu Vencendo Sempre e a moda campeira Casando Fugido, que enriqueceram nosso querido Brasil." A dupla se desfez em 1952, dando lugar a outra parceria: Piraci e Cuiabá, que se manteve unida até 1957.
Em dez anos de carreira Piraci havia participado de três duplas de grande sucesso junto ao público, embora tivessem sido parcerias de curta duração. A partir daquele momento Piraci passou a dedicar-se mais ao humorismo, viajando acompanhado do então desconhecido sanfoneiro Mário Zan. Assumiu também muitas outras atividades, além daquela de que mais gostava: excursionar pelo Brasil afora divulgando a música caipira e o folclore brasileiro em shows pelo interior. Nas animadas rodas de cururu de que participava estava sempre ao lado do estudioso do folclore João Chiarini.
Convidado a dirigir o setor sertanejo da Chantecler, Piraci foi o responsável direto pelo lançamento de discos de cururueiros como Parafuso, Pedro Chiquito, Nho Serra, Moreno e tantos outros, que hoje são nomes importantes na história de nosso folclore.
Também foi Piraci quem lançou duplas como Duo Glacial e Duo Brasil Moreno, além de uma das melhores e até hoje mais bem-sucedidas e duradouras duplas sertanejas do Brasil: Tonico e Tinoco. Em 1958, na Editora Gráfica Souza Ltda., cuidou, junto com Serrinha, da apresentação gráfica da coleção de discos que compunha a série Brasil Ritmos.
Piraci continuou viajando com sua trupe, levando seu bom humor e sua experiência de artista consagrado a todos os cantos do Brasil. Em 1967 gravou pela Chantecler o LP Pândegas, Anedotas e Trocadilhos de Piraci, o Rei do Trocadilho, onde reuniu muitos 'causos', trocadilhos e cantigas, entre as quais se destacam: Conselhos Para as Moças (Lourival dos Santos e Moacir Santos), Trocando de Profissão (Piraci e Jorge Paulo) e Moda dos Ofícios (Piraci e Capitão Furtado). Augusto Toscano, então Presidente da União dos Artistas Sertanejos Paulistas, afirmava na contracapa do disco que " [...] falar de alguém que o Brasil inteiro conhece, aplaude e admira ao longo de uma vitoriosa carreira artística, é missão das mais árduas. [...]
Traçar o perfil de Miguel Lopes Rodrigues, uma criatura das mais sérias, responsável pela evolução e pelo prestígio da música sertaneja, é tarefa dificil.[...] Piraci, o Rei dos Trocadilhos. Piraci, o cantor. Piraci, o compositor. Piraci, o humorista. [...] Piraci formou duplas que ainda hoje são lembradas. Suas músicas, ultrapassando a casa das trezentas, continuam sendo cantadas, [...] graças à beleza de suas melodias e à singeleza poética de seus versos. [...] Homem que sempre esteve na trincheira defensiva da música sertaneja e jamais fugiu do campo de luta, onde quer que ela se apresentasse [...]."
Alguns anos mais tarde, em 1970, em noite de moda de viola e saudades do interior em seu apartamento na Avenida São João, em São Paulo, ao lado da família e de amigos violeiros, Piraci compôs, com Lourival dos Santos, seu parceiro original, aquela que ficou conhecida como um dos maiores sucessos de sua carreira: a canção Rio de Lágrimas ou Rio de Piracicaba, uma emocionada homenagem do compositor à sua cidade natal. Imediatamente gravada por Tião Carreiro e Pardinho, a composição obteve ampla aceitação por parte do público, sendo hoje uma das músicas brasileiras que atingiu os mais altos índices de regravação por outros cantores.
Entre os mais de 150 intérpretes de Rio de Lágrimas encontram-se vozes como as de Tonico e Tinoco, Sérgio Reis, Nardeli, Renato Teixeira, Almir Sater, Nenete e Dorinho e muitos outros.
Piraci foi também sócio fundador da SOCIMPRO e sócio da União Brasileira de Compositores, a UBC, onde prestou grande serviço à profissionalização dos músicos nacionais. Impulsionado por seu interesse em torno do cururu, do cateretê, da moda campeira, da catira e de outras manifestações folclóricas brasileiras, Piraci fundou ainda, junto com Alceu Mainardi, a Revista Brasileira do Folclore, publicação que muito estimulou o reconhecimento desse importante segmento da cultura do país.
Armando Augusto Lopes, no artigo Piraci, uma legenda, escrito para a Revista Sertaneja, assim descreve o compositor: "Piraci figura entre os pioneiros da difusão da música sertaneja na capital.
Quando estreou ao lado de Palmeira na Rádio São Paulo, em 1939 [a data correta é 1941], cantar música caipira era uma verdadeira temeridade. Poucas duplas haviam conseguido agradar até então e, via de regra, era necessária a inclusão de boa dose de humorismo nas apresentações e na própria letra das modas para evitar as vaias. Ao lado de Palmeira, Piraci formou uma das primeiras duplas que se arriscaram a contrariar essa norma."
Pouco tempo depois Piraci foi convidado a dirigir o selo da gravadora RCA Candem especializado em música sertaneja e ali continuou apoiando artistas emergentes que mais tarde viriam a se tornar expoentes do mundo musical.
Ao longo de sua carreira Piraci participou de todos os mais importantes programas de rádio do Brasil, entre eles Terra Brasileira e Aqui Está a Record, na Record; Arraial daCurva Torta, apresentado pelo Capitão Furtado, na Cultura; Carlos Ailton, na Paulista e Disque Sertão, na Nacional, na Bandeirante e na Difusora de São Paulo. Foi convidado a cantar na inauguração de rádios da Bahia e do Rio de Janeiro e, além disso, comandou seu próprio programa de rádio, na Rádio e TV Record.
Pertenceu à Associação dos Radialistas do Estado de São Paulo, à União dos Artistas Sertanejos Paulistas, ao Sindicato dos Músicos Profissionais do Estado de São Paulo, ao Sindicato dos Compositores Musicais do Rio de Janeiro e a muitas outras entidades coletivas. Recebeu também numerosos prêmios, homenagens, menções honrosas e troféus no decorrer de sua intensa e proficua vida profissional. No ano seguinte à sua morte,
Piraci foi homenageado publicamente em sua terra natal, Piracicaba, onde seu nome de batismo, Miguel Lopes Rodrigues, foi perpetuado em uma das ruas da cidade. Seu nome consta da Enciclopédia Brasileira de Música, edição atualizada pela Folha de São Paulo, e do livro de autoria de Rosa Nepomuceno, Música caipira: da roça ao rodeio, ambos editados em 1999.
Atualmente, são realizados trabalhos de pesquisa em torno da obra pioneira de Piraci, com o propósito de resgatar sua memória e de garantir-lhe o merecido destaque na história da música nacional. É importante ressaltar que a obra artística de Piraci - mais de 500 títulos gravados e editados - continua, mesmo depois de sua morte em 1974, sendo alvo de regravações na voz de vários intérpretes da música brasileira, caracterizando não apenas a verdadeira qualidade de seu trabalho artístico mas também a universalidade e a atemporalidade de suas canções.
Para finalizar é preciso ainda registrar a insensibilidade que marcou um recente evento político ocorrido em Piracicaba, durante a homenagem prestada pela Câmara Municipal aos compositores da música-símbolo da cidade, Rio de Lágrimas: a exclusão do nome de Piraci das comemorações. Nada poderia ser mais injusto, pois além de ser o único piracicabano entre os parceiros, o compositor, através de seu pseudônimo, levou o nome de Piracicaba a todos os recantos do país, tendo dedicado à cidade mais de vinte outras composições, como Saudades de Piracicaba (Piraci), Vencendo Sempre (Piraci e Guarani) e Luar de Piracicaba (Piraci e Aldino de Oliveira).
Colecionador monta arquivo fonográfico com raridades da música regional
Enviado por Carlos Luz