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sexta-feira, 30 de março de 2012

Porteira Velha

Porteira

Porteira velha, emperrada
O seu fim é um suplício
Lá bem longe, no início
Quando tu foste sentada
Com capricho, acabada
Dava gosto de se ver
Até o som do “gemer”
Que do atrito advém
E toda porteira tem
Ouvi-lo dava prazer

A boiada esperava
Paciente, sua hora
Prosseguindo, sem demora
Quando o guia escancarava
E o vaqueiro que guiava
Chamava o gado, aboiando
O rebanho, atrás, urrando
Como que compreendendo
No mesmo tom respondendo:
- Dá licença, vou passando

Por ti passava o vaqueiro
No seu burro bem zelado
E o careto, calçado
Que montava o fazendeiro
O trabalhador, meeiro
Tangendo o seu jumento
Carregando seu sustento:
Milho, feijão, melancia
Mas chegando ao fim do dia
Por ti só passava o vento

Ou melhor, vou corrigir:
Pela sua imponência
Sem a sua anuência
Não passava por ali
Nada podia seguir
Em ti, tudo esbarrava
O vento lhe respeitava
Desviando noutro prumo
O preá mudava o rumo
E nunca lhe afrontava

Como que em um quartel
Que se bate continência
Saudando na reverência
A patente coronel
Até as aves do céu
Respeitavam, ao pousar
Escolhendo pra sentar
Na cerca que segue ao lado
Nem os touros do cercado
Ousaram em ti marrar

Mas da glória do passado
Só lhe resta o gemido
Soando bem mais sofrido
Quando sendo acompanhado
Do ruído do arrastado
Quando roça pelo chão
Que cruel humilhação
Ver a mais bela porteira
Perto de virar fogueira
Ou lenha para o fogão

Em vez de gado no pasto
E porcada no chiqueiro
Com galinhas no terreiro
E um cachorro bom de rasto
Um belo roçado, vasto
E muito peixe no rio
A natureza no cio
Com fartura que nos pasma
Só nos restou um fantasma
De tudo que existiu

Sou o mourão que a sustenta
E nunca cedeu um palmo
Confesso, não estou calmo
E nada mais me alenta
O futuro que se aventa
Machuca mais que lancete
Eu afirmo, sem falsete:
Desejo que o cupim
Possa abreviar meu fim
A ter que firmar colchete


(Pedro Augusto Fernandes de Medeiros)

http://seridopintadocompalavras.blogspot.com.br/2009_09_01_archive.html

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