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quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Moreno e Moreninho (Biografia) História de João Boadeiro

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Os irmãos Moreno (Pedro Cioffi) e Moreninho (João Cioffi)

Em 1968, os irmãos Pedro Cioffi (1925-1995) e João Cioffi (1927-2008), da dupla caipira Moreno e Moreninho, cantaram para todo o país a história da primeira operação de transplante cardíaco realizada no Brasil, imortalizada por eles nos versos do rasqueado João Boiadeiro, de autoria de Moreninho.

Embora obtivesse sucesso na época, a canção não recebeu maior destaque na gravação, saindo na oitava faixa, no Lado B do Long Play Coração Caboclo, lançado pela gravadora Continental. Talvez porque o paciente morresse 28 dias depois do transplante!

O título do LP faz alusão ao coração do boiadeiro mato-grossense. Está assim nas duas últimas das dez estrofes do poema, todas com oito versos, em decassílabos e rimas alternadas nos segundos e quartos versos:

João Boiadeiro de coração novo
Mas durou pouco sua nova vida
Pois o destino lhe tombou por terra
Foi sepultando sua despedida
Assim termina a vida de um caboclo
Que Deus te guarde no reino da glória
Vai boiadeiro de dois corações
Fica o seu nome no livro da história.

O transplante foi realizado na manhã do dia 26 de maio de 1968, em São Paulo, pelo professor Euryclides de Jesus Zerbini (1912-1993), auxiliado por 41 especialistas, entre cirurgiões, anestesistas, cardiologistas e enfermeiros.

O cirurgião transferiu o coração do jovem Luis Ferreira de Barros, vítima de atropelamento, para o peito do mato-grossense João Ferreira da Cunha, 23 anos. Conhecido por João Boiadeiro, o vaqueiro morreu de rejeição imunológica, uma complicação na época, hoje praticamente inexistente.

Arquivo da Folha de S.Paulo

João Ferreira da Cunha, segundo a imprensa, na época, padecia de problemas cardíacos e fora a São Paulo para tratamento, procedente do Mato Grosso (a divisão do estado em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul viria em 1979), onde trabalhava como vaqueiro em várias fazendas, especialmente no município de Maracaju, atualmente no Mato Grosso do Sul.

A saída do vaqueiro das terras pantanais, o abandono da lida com o gado, sua chegada a São Paulo e o transplante foram cantados por Moreno e Moreninho:

João Boiadeiro, coração doente
Foi despedindo do seu Mato Grosso
Foi pra São Paulo para tratamento
E conhecer o gigante colosso
Foi recebendo um coração paulista
Deixando o seu que veio do sertão
Doutor Zerbini com a mão sagrada
Foi quem lhe fez essa transplantação

Nos moldes comerciais das gravações da época, o disco traz 12 faixas, sendo seis de cada lado, mas nenhuma repercutiu tanto quanto João Boiadeiro, regravada em pelos menos 10 outros discos, um dos quais Festa sertaneja, de Morena e Moreninho. Em 1999, Moreninho e sua filha Ivone Cioffi Monteiro (1957) formaram a dupla Morena e Moreninho e gravaram cinco discos, até 2008.

Capa do LP Coração de caboclo

A canção João Boiadeiro, que sofreu alterações nos arranjos, com vista à gravação da nova dupla, teve o nome de Morena acrescentado no registro autoral, de modo que agora os dois assinam a letra e a melodia. Originalmente, a autoria era somente de Moreninho.

Ouça aqui, pelo Youtube, o rasqueado João Boiadeiro.

Duas outras canções caipiras anteriores ao disco de Moreno e Moreninho trazem o título João Boiadeiro. São as modas de viola de Pedro Capeche e Chiquinho e gravada por Tonico e Tinoco, em 1961, no LP A saudade vai, pela Continental, e de Sulino e Sebastião Victor, gravada em 1964 por Sulino e Marrueiro, no LP Sua majestade a moda de viola, pela Chantecler.

Enquanto as letras escritas por Moreninho e por Sulino, esta em parceria com Sebastião Victor, registram um final trágico, a de Chiquinho e Capeche pode ser interpretada como uma alegoria, com a qual a dupla caipira presta homenagem a um boiadeiro da cidade de Bauru (SP).

Das três, a que conta a história do primeiro transplante de coração realizado no Brasil foi a que mais se destacou, a ponto de ser regravada pela dupla no ano seguinte, no disco Menino pobre, também da Continental.

Com a melodia assentada no timbre de um órgão eletrônico, instrumento que caracterizou a Jovem Guarda, João Boiadeiro enfrentou Eu te amo, te amo, te amo, de Roberto Carlos, na programação musical das rádios. A canção de Roberto estava no álbum O Inimitável, seu primeiro disco após deixar o programa Jovem Guarda oficialmente no dia 17 de janeiro de 1968, quando ele apresentou a última edição, no Teatro Record, em São Paulo.

A quinta e a sexta estrofes, de um total de oito, da moda de viola de Pedro Capeche e Chiquinho, gravada por Tonico e Tinoco, em 1961:

[…]
Me chamo João Boiadeiro
Sou caboclo arrespeitado
Pelo toque do berrante
Eu já sei que estou magoado
Disfarço na minha viola
Meu coração machucado
Recordando da morena
Que ficou lá noutro Estado.
[…]

A estrofe de abertura da moda de viola de Sulino e Sebastião Victor, gravada por Sulino e Marrueiro, em 1964:

Lá pras banda de Andradina
essa história eu vi contar
o senhor João Boiadeiro
como tinha que viajar
deixou vinte mil cruzeiros
pra sua mulher guardar
ela ia ficar sozinha
e podia precisar
pra sair fez esse aviso
gaste só no que é preciso
que eu demoro pra voltar.
[...]

A contribuição de Moreno e Moreninho à música caipira não se limitou à canção João Boiadeiro, ou às outras, da trilogia do vaqueiro, Laço do João Boiadeiro, de 1972, e Capela do João Boiadeiro, de 1974. Antes disso, tocaram viola no Teatro Municipal de São Paulo, em 1955, antes do concerto do violonista espanhol André Segovia (1893-1987). Três anos depois, o violonista ganharia o prêmio Grammy pela Melhor Performance Erudita – Instrumentista em 1958.

A dupla apresentou duas músicas de folias de Santo Reis e uma congada, antecipando o que fariam Tonico e Tinoco, em 1978, com o espetáculo Da beira da tuia ao Teatro Municipal. Moreno e Moreninho foram os primeiros cantores caipiras a participar de um espetáculo musical no Teatro Municipal de São Paulo, que está completando 100 anos. O teatro foi inaugurado pela ópera “Hamlet”, de Ambroise Thomas, em 1911.

BIOGRAFIA E SUCESSO

Moreno (Pedro Cioffi) nasceu na cidade mineira de Machado, em 27 de dezembro de 1925, e faleceu em Poços de Caldas, em 14 de dezembro de 1995. Seu irmão Moreninho (João Cioffi) também nasceu em Machado, no dia 29 de setembro de 1927, e faleceu em Campinas (SP), no dia 23 de abril de 2008.

Os dois começaram a cantar em 1949, na Rádio Cultura de Poços de Caldas, de onde se transferiram, após quase cinco anos, para a Rádio Record São Paulo e lá permaneceram mais quatro. Passaram pela Rádio Tupy até serem contratados pela Rádio Nacional de São Paulo (atual Rádio Globo), na qual ficaram por nove anos. Depois, as rádios Bandeirantes, por anos, e Nove de Julho, por seis.

Em 1953, a dupla gravou pela Sinter, no Rio de Janeiro, o primeiro disco, 78 RPM, com as músicas Namoro moderno, de José Eloy Garcia e Moreno, no Lado A, e Nossa Senhora Aparecida, de Moreninho, no Lado B. Em 1956, Moreno e Moreninho fizeram sucesso com a congada “Treze de Maio”, de Teddy Vieira, Riachão e Riachinho, a mesma apresentada no Teatro de São Paulo no ano anterior.

Riachão e Riachinho, com nomes de registro civil Vitório e Orlando Cioffi, são irmãos de Moreno e Moreninho, da mesma forma que o cantor caipira Catireiro (Omero Cioffi). Ainda se destaca a musicista e cantora Morena (Ivone Cioffi Monteiro), filha de Moreninho, com a qual ele chegou a formar parceria por cinco anos.

Moreninho e a filha Morena

Em 1959, alegando motivos pessoais, Moreninho desfez a dupla e retornou para Poços de Caldas, o que obrigou Moreno a cantar, por algum tempo, em dupla com Paraguai e, depois, com Adolfinho. Por seu turno, Moreninho também formou dupla com Minuano, em 1975, a qual durou dois anos. Depois, Moreninho procurou o irmão Moreno e refizeram a dupla por mais algum tempo.

Moreno e Moreninho gravaram centenas de canções, explorando os ritmos do folclore brasileiro, a exemplo das folias de reis, congada, catira, toada, cururu, rasqueado, recortado e xote, além da moda de viola. Foram dezenas de discos, desde 1953, entre 78 RPM, compactos simples e duplos, e LP, e foram centenas de canções.

Destacam-se Viola de pinho (Aristides Dela Costa e Moreno), Canarinho amarelinho (Moreno e Brejinho), Pescador vagabundo (Moreno e Roque José de Almeida), Mané Tibiriçá (Roque José de Almeida e Moreno), Professora e o vagabundo (Moreninho), Louvação a São Gonçalo (Geraldina e Rodrigues), São Gonçalo (José Alves e Moreno), Alma de caboclo (Duo Jubileu e Moreno), Tirana ingrata (Moreno e Moreninho), Rei Pelé (Moreninho), Saudades de Rosalina (José Alves e Moreno) e Viola, minha viola (Moreno).

Você pode conhecer a discografia da dupla Moreno e Moreninho no sítio Recanto Caipira. Clique aqui

Ou no blog de Morena e Moreninho. Clique aqui

■ Para elaboração deste texto, foram consultadas as seguintes fontes e ouvidas outras: Música Caipira: da roça ao rodeio, de Rosa Nepomuceno, Editora.34, 1999 / Enciclopédia da Música brasileira, PubliFolhas, 2000 / Dicionário Eletrônico Houaiss, 2009.
■ E os endereços eletrônicos, entre os dias 18 e 30 de abril de 2011: Folha de S. Paulo // Universidade Federal Fluminense // Morena e Moreninho // Recanto Caipira // Memória Musical

Autor:

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Ari donato

Salvador.Brasil

Ari Donato, jornalista, 57 anos, nascido em Guanambi, no sudoeste da Bahia, católico, de formação apostólica romana, amante das modas de viola, do sertão, onde a amizade e o companheirismo ainda fazem campeação ao lado do homem, e admirador das palavras, escritas ou ditas, que são a base da criação divina. Sou nada, diante do tudo que há no mundo, mas sou a totalidade das coisas, pois sou obra do Criador. http://adonato.wordpress.com/

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