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terça-feira, 3 de janeiro de 2012

CARRO DE BOI

O carro de boi representa a mais antiga tradição de terra e ainda um remoto meio de transporte, substituído hoje por veículos mais modernos e eficazes.

Não obstante o avanço do progresso em todos os sentidos, vale a pena meditarmos no passado, pesquisando a vida daqueles que com dificuldade e heroísmo desbravaram nossas terras virgens fazendo surgir e florescer cidades onde tivemos hoje, sem contudo conhecer o seu passado.

Em 1855, no município de Muqui, surgia o primeiro carro de boi, pertencente ao senhor José de Souza Pinheiro de Souza Werneck, proprietário da fazenda Santa Teresa do Sumidouro. Naquela época, todo o comércio deste município era feito em Cachoeiro do Itapemirim, através de carros de bois ou tropas, cantando pela estrada o canto típico do trabalho difícil e moroso. No afã do progresso, outras fazendas foram se formando, surgindo assim inúmeras delas às margens do ribeirão Muqui do Norte, e com elas os carros de bois se multiplicavam.

Com o passar dos anos, o progresso foi chegando a nossa região, os primeiros caminhões foram aparecendo para surpresa de todos, reduzindo o uso dos tradicionais carros de bois. Mesmo assim em algumas fazendas como em Santa Rita, Floresta, Fortaleza, Rio Claro, Pedra Negra e outras, ainda o usam com freqüência, para transporte dos cereais que cultivam de preferência, transportando-os das lavouras para os paióis das próprias fazendas, dada a difícil topografia do terreno.

Para uma melhor idéia acerca do antiquado veículo, tive o prazer de entrevistar o mais antigo carreiro da região, senhor José Augusto da Silva, que gentilmente me informou sobre os detalhes principais de sua profissão. Segundo nossa entrevista, um carro de boi pode durar até cinqüenta anos, se for devidamente cuidado, e acabar logo, se não forem observados os cuidados necessários para com o mesmo. Alguns cuidados, ditos pelo sábio homem, incluem a observância do eixo para não se derreter com o atrito nos dias de intenso calor. Para evitar tal ocorrência, o carreiro cauteloso traz sempre consigo um chifre contendo azeite de mamona para o unto feito a miúdo, entre o chumaço, cocões e o próprio eixo.

A característica do carro de boi é aquele caminhar lento que mais parece a "paciência em marcha", e aquele canto que nos faz lembrar um lamento de angústia, ante o açoite dos garruchões que padecem os animais. Não obstante os "eia" dos vaqueiros e o ameaço das torturas, os bois caminham a passo, indiferentes a tudo. O típico cantar dos carros deu origem ao conhecido provérbio: Carro apertado é que canta.

Para a confecção deste trabalho foi necessário entrevistar algumas pessoas peritas no assunto e que tiveram a gentileza de me ouvir e em seguida responder às perguntas que fiz.

Sou grata ao senhor José Augusto da Silva, brasileiro, viúvo, carreiro, residente na fazenda de São Francisco, neste distrito, e ao senhor Joaquim Ribeiro, brasileiro, casado, carreiro, residente neste distrito também. Estendo ainda meus agradecimentos aos fabricantes de carro de boi, Augustinho Meloni, brasileiro, casado, carpinteiro, residente na fazenda da Cachoeirinha, neste distrito de Muqui, e Eduardo Martins Vicente, brasileiro, casado, marceneiro, residente nesta cidade.

Através dos últimos entrevistados, tive conhecimento dos preços atuais dos carros. Fabricado na roça fica em Cr$ 800,00 (oitocentos cruzeiros); nas oficinas de carpintaria e marcenaria da cidade, o preço vai até Cr$ 1.500,00 (hum mil e quinhentos cruzeiros).

Assim, em linhas gerais, está aí um apanhado ligeiro sobre o veículo remoto, típico no início de nossa civilização, usado em todo o Brasil.

FONTE: http://jangadabrasil.com.br

O Carro de Boi

Tem carro de boi, e tem carreta. Carreta tem roda raiada e é muda, não canta. Carro de boi tem roda inteira, e canta para se ouvir de léguas, seja gaita, pombo ou baixão . É coisa de sertanejo, é uma saudade doída de um tempo onde se ia devagar, mas havia mais tempo para ver e entender as coisas. Saber de carro de boi, é mexer com magia, é entender a alma da madeira e do ferro, da terra e do fogo, da água e do ar...

O carro de boi foi nosso principal meio de transporte no período colonial, no império e até na era republicana. Mas, vamos só falar da coisa em si, do que o Professor Ramalho reuniu ao longo dos anos, trocando prosa com carapinas, candieiros, carreiros, fazendeiros lá das bandas de Taquaritinga, Jaboticabal, Guariba, Monte Alto, Santa Adélia, e arredores. Juntou a ciência da feitura, "causos", muita coisa boa de se conhecer.

A Construção

Visto de frente, de lado, de cima e de baixo, o bicho é veículo simples, de duas rodas. Todo feito de madeira, menos os aros das rodas, a chaveta e o argolão, que são de ferro, leva as cargas na mesa, que remonta no par de rodas e tem um varejão reforçado onde se atam os bois, chamado cabeçalho.

Ilustração de João Crispim, de Montes Claros, MG, cujo pai foi carreiro e construtor de carros de boi.

Ilustração de João Crispim, de Montes Claros, MG, cujo pai foi carreiro e construtor de carros de boi.

Foto da parte superior do carro, mostrando algumas das partes constantes do diagrama acima.

Vista do carro por baixo, notando-se as chedas , cabeçalho e o assoalho travados pelas arreias, em número de cinco. À direita vê-se o argolão, preso na ponta do cabeçalho, junto ao cadião. No meio da mesa vê-se os quatro cocões, dois de cada lado.

Parte dianteira do cabeçalho, mostrando a chaveta e a orelha.Aqui é presa a canga dos bois de coice.

Parte trazeira da mesa, conhecida como cadião ou recavém. Notar a meia-lua do cabeçalho, que continua por baixo do cadião e onde é preso o argolão (oculto).

Vista inferior do carro, vendo-se o eixo, as arreias que prendem o assoalho da mesa nas chedas curvas, e os cocões.

Detalhe do cocão, preso entre as emborgueiras, vendo-se a cantadeira e o chumaço, de madeira clara e mole.

A mesa é feita de duas chedas que saem uma de cada lado, ligadas no cabeçalho e que apoiam o assoalho. As chedas e as arreias que as unem são feitas de cabreúva, madeira que nem se sabe se existe mais. O assoalho é de canelão, ou outra madeira nem muito dura, nem muito mole. Na parte de trás, fica o rebaixo (recavém).

Roda de cabreúva, mostrando o agulhamento radial de botões metálicos e ao centro na almofada, os dois gatos, para proteger o meião de rachaduras.Observa-se ainda, as duas cavilhas cônicas travando a roda.

Diagrama da roda, mostrando suas partes:
1 - cambota 2- meião 3- arreia 4- almofada 5- ponta do eixo 6- amecha ou buraco da roda 7- óculos ou oca 8- separação entre a cambota e o meião 9- aro de metal da roda.


Rodas de carro, semiprontas, de jacarandá da Bahia. Note que o meião ainda não foi cortado.

Uma das rodas ao lado, com o meião separado das cambotas, para mostrar como é feito o travamento interno com as duas arreias.

As rodas são de cabreúva, a parte do centro é chamada meião e lateralmente se limita com as duas cambotas. O meião, perto das cambotas, tem sempre dois buracos, o bocão, ou oca, que é para o som criar força e ecoar. O aro da roda é de ferro, e para ser calçado, é forjado na bigorna, a malho, redondo perfeito, então esquentado quase ao vermelho numa fogueira de roda. O ferreiro e os ajudantes o ajeitam em cima da roda, no chão, acertam rápido com golpes de malho para não ficar torcido e, estando paralelos, o esfriam com água. O ferro se contrai de a madeira estalar... Nunca ninguém mais tira. Os cravos de meio palmo eram só pelas dúvidas.

O eixo também é da desaparecida cabreúva, oitavado e com morgueiras do lado de dentro, para o chumaço não escapulir do cocão. São dois de cada lado, e é por donde gira o eixo. O chumaço deve, de preferência, ser feito de canelão, pra o carro realmente cantar. Madeira dura canta fino, de gaita, canelão canta de pombo ou canta baixo. Capixingui, baraúna e caviúna fazem carro

Eixo de carro de boi, de cabreúva, lavrado à mão a partir de uma peça única de medidas aproximadas 180x22 centímetros.

Partes do eixo da roda.
1- espiga, com 24 cm de comprimento e secção quadrada,terminando com 8 cm de lado, na ponta do eixo. 2- emborgueira ou morgueira, com 6 cm de largura 3- cantadeira, com 11 cm de largura e rebaixo de 3 cm 4- emborgueira de dentro, com 4 cm de largura e
5- degolo do eixo, com comprimento de 75 cm.

cantar até sem carga, mas pedem óleo de copaíba. Canelão canta com óleo de mamona. Esse fica num chifre chamado azeiteira, amarrado com correia num fueiro, e uma vara com trapo na ponta é usada para por óleo no chumaço. Tem vez que o eixo, no atrito com o chumaço, chega a fumacear e levantar labareda. Aí o carreiro pega os cachos de mamona verde e limpa a cantadeira, que é a área do chumaço ajustada no eixo.

Foto de um eixo montado com suas rodas. Pode-se notar a posição exata dos chumaços em cima das cantadeiras.

Vista lateral do conjunto, podendo-se ver o agulhamento, os gatos, as cavilhas prendendo a roda, as ocas e um chumaço. Estas lindas rodas são de jacarandá da Bahia e o eixo é de cabreúva.Notar a perpendicularidade entre os meiões, de tal forma que ao andar o carro, e por segurança, um dos dois meiões está sempre em contato com o chão.

A canga tem quatro canzis, dois de cada lado, servindo um par para cada boi. É feita de cabreúva, açoita-cavalo, assapuva ou amendoim, algumas vezes revestida de couro cru. A de cabeçalho é mais pesada, pois segura os bois de coice, os primeiros depois do carro. Os canzis são feitos de peroba, guatambu ou alecrim, têm de ser lisos e bem volteados, para não machucar os bois. Os do cabeçalho têm de ser volteados juntamente com a canga, para o boi poder segurar o carro e parar, quando for preciso. A parte grossa da canga é a barriga, nela encontra-se o tamoeiro de couro cru torcido em várias voltas, que serve para a passagem do cabeçalho, seguro pela chaveta. A orelha é uma haste de madeira atravessada perto da chaveta e também serve para segurar o cabeçalho.

Tipos de cangas.
a- canga de coice b- canga de meio e c - canga de guia.
1- canzil 2- fura da canga 3- tamoeiro e 4- brocha.

Canga de coice ou cabeçalho, mais reforçada. Notar os canzis de madeira, as brochas e o tamoeiro central, peças de couro trançado.

Canga de meio ou guia, mais delgada, com as mesmas peças de madeira e couro.

Na traseira do carro, há o argolão de ferro, que serve para engatar os bois para puxar o carro para trás, quando encalha, e para encangar os bois de retranca, quando a descida é muito forte. Nela se amarra a tiradeira, ou cambão, quando se tem que "depenar uma coruja", que é como o povo chama tirar o carro do atoleiro. O cambão é um varejão forte e reto feito de cabreúva, assapuva, guatambu ou peroba. Tem na parte da frente uma chaveta e, na de trás, o rabo, de couro cru, que se engata na chaveta da junta de bois anterior. Quanto mais bois na canga, mais cambões são usados. Também se usa rabo de corrente e gancho de ferro, mas o certo é o couro cru.

A mesa, sem os fueiros, de pouco serve. Fueiro é haste reta e forte, de carrapateiro, guaritá, assapuva ou peroba, que se encaixa nos furos dos lados do assoalho, em geral cinco de cada lado, dois na frente e dois no cadião. Seguram a carga e escoram a esteira, um trançado de taquara de mais ou menos um metro de altura, que fica em pé e tem abertura no fundo do carro. Fecha com atilhos de couro. Para proteger a carga, usa-se couro curtido inteiro de boi . Quatro deles cobrem um carro.

1- tiradeira 2- chaveta e 3- rabo ou rabada. 4- vara de ferrão 5- ajoujo e 6- azeiteira e o pincel.

Das tralhas miúdas, temos o ajoujo, que serve para amarrar os chifres de um boi ao outro, formando a junta. Também serve para aquietar menino danado... É feito de couro cru, tem mais ou menos duas braças de comprido. Os tamoeiros também são de couro cru torcido e volteiam as cangas, servindo para travar a frente dos cambões ou tiradeiras pelas chavetas. Temos também a brocha, que serve para amarrar os canzis por baixo do pescoço, para segurar o boi e evitar que a canga solte do cangote. Mede mais ou menos um palmo e é feita de couro cru torcido.

Há a escora, de madeira, que vai um palmo acima da canga e dois palmos e meio abaixo, servindo para apoiar o carro, quando parado, aliviando o peso nos bois de coice, ou para manter o cabeçalho na horizontal, quando desatrelado. Cabeçalho no chão dá azar.

Finalmente, existe a vara de ferrão, de carrapateiro e até de peroba, na frente leva ponteiro de ferro que, antes da ponta, tem furo com duas ou três argolas de ferro, que chacoalham e, assim, o boi já sabe que lá vem cutucão e desamua, ou arranca mais. Carreiro bom não espeta boi de tirar sangue. Só ponteia, depois o bicho se mexe só pelo barulho das argolas. Quando tem muitas juntas, costuma-se amarrar na ponta do ferrão uma tira comprida de couro, para alcançar e deixar os bois lá da frente mais espertos.

As Madeiras
As madeiras empregadas para fabricar carros de boi são, em geral, as seguintes(5):

Mesa: sucupira, óleo vermelho (cabreúva), ipê, tabaco, garapa cipó,
jacarandá da Bahia.

Chedas: sucupira e as demais usadas na mesa.

Eixo: óleo vermelho.

Arreias: roxinho, óleo.

Tornos ou pinos: roxinho, óleo.

Fueiros: tambu, garapa, pitangueira, guamirim,calcanhar de cotia.

Cavilha: roxinho ou óleo vermelho.

Pigarro: óleo vermelho ou sucupira.

Cocões: óleo vermelho.

Chumaço: canela sebosa, leiteiro, figueira sangra dágua.

Canga: bico de pato, caviúna, sapuva(saperetê), jacarandazinho
da várzea(sapuvão) e jacarandá.

Canzil: laranjeira da mata virgem, roxinho, peroba, ipê,
laranjeira de casa, óleo pardo, pitangueira e pequiá.


Tamanho das peças do carro de boi

Mesa: comprimento 3 metros por 1,30 de largura.

Cabeçalho: 4,5 a 5 metros.

Eixo: 1,65m de comprimento e 22 centímetros de espessura
ou 9 polegadas.

Roda: 1,20m de altura.

Fueiros: 1,20 a 1,50m de comprimento.

Nota: Estas medidas variam de acordo com os fabricantes
e o tamanho do carro.
Textos e fotos extraídos do site:http://www.widesoft.com.br/users/pcastro1/carrodeboi.htm de Paulo Roberto Moura Castro.

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